Aulas de Primavera, Elab, FCSH
Friday, February 19, 2010 at 10:19AM AULAS DA PRIMAVERA
Curso Livre de Estudos Avançados de Literatura
promovido pelo
Laboratório de Estudos Literários Avançados (Elab)
1.ª Edição, Abril Junho de 2010:
8 Lições de Literatura
As Lições
9-10 de Abril
A PRODUÇÃO DA EVIDÊNCIA
António Feijó (Universidade de Lisboa)
A lição abordará o problema de saber em que consiste a evidência na análise literária, e de tentar determinar se os casos, comparativamente raros, em que a evidência justificativa de uma posição crítica surge ex post facto, são contingentes e especiais, ou não. Ponto de partida — ou texto de base —, a primeira carta de Fernando Pessoa para João Gaspar Simões.
16-17 de Abril
PRESENÇAS DO CINEMA NA POESIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA Rosa Maria Martelo (Universidade do Porto)
A partir de uma selecção de textos poéticos em que é possível detectar formas diversificadas de diálogo com o cinema, pretende-se estudar a presença do cinema na poesia moderna e contemporânea, tanto do ponto de vista temático como discursivo.
23-24 de Abril
NOÇÃO TRADICIONAL DE LITERATURA TRADICIONAL
Pere Ferré (Universidade do Algarve)
Menéndez Pidal estabeleceu uma profunda diferença entre a literatura popular e a literatura tradicional. Com base nos critérios da persistência e da variação, atribuiu à primeira os textos de invenção recente, transmitidos por via oral e com fidelidade discursiva, e à segunda o património textual legado de geração em geração, através de uma recitação permanente recriadora. Uma primeira leitura desta formulação conduz-nos a considerar a literatura tradicional como o espaço privilegiado de uma ampla variação textual, avesso à conservação da estrutura discursiva e fabulística dos textos. Contudo, o próprio facto de o filólogo ter utilizado os poemas tradicionais – como um arqueólogo (Paul Bénichou) – para refazer os passos perdidos das velhas baladas narrativas, dos antigos cantares épicos e da primitiva historiografia, nos alerta para a forte tendência conservadora do processo de transmissão tradicional. Em que ficamos, pois? Define-se a literatura tradicional pelo seu pendor de preservação (de memória) ou de variação (recriação)? Como é bom de ver, ambos são faces da mesma moeda e ambos se encontram submetidos a rigorosas regras que impedem, simultaneamente, a cristalização de um texto e, consequentemente, a perda da sua actualidade, bem como a variação sem limites, inevitavelmente descaracterizadora. Recorrendo a exemplos do romanceiro medieval e da tradição oral moderna panhispânica, procurarei aprofundar o conceito de tradicionalidade, bem como os vários níveis de conservação e de variação que um género tradicional comporta.
7-8 de Maio
CULTURA LITERÁRIA E FORMAÇÃO DE PROFESSORES
José Augusto Cardoso Bernardes (Universidade de Coimbra)
Muitas vezes atribuída a factores exógenos, a crise do ensino da Literatura deriva também, muito provavelmente, de insuficiências dos seus agentes, que podem e devem ser corrigidas. Uma dessas insuficiências situa-se no domínio da formação de professores. Em vez de se centrar apenas numa das áreas convencionais dos estudos literários (Retórica, História Literária e Análise de Textos), o objecto de formação deveria, em meu juízo, revestir um carácter mais abrangente, orientando-se para o fortalecimento de uma “Cultura Literária” mais equilibrada e mais densa, que possa, desde logo, constituir factor de requalificação no conjunto dos saberes escolares.
Na presente Lição procuro estabelecer cinco fundamentos dessa mesma “Cultura”, no quadro de uma estratégia global que visa ajustar o ensino da literatura às grandes metas educacionais do nosso tempo.
14-15 de Maio
FRONTEIRAS DA MODERNIDADE ESTÉTICA
Manuel Gusmão (Universidade de Lisboa)
Começar-se-á por esboçar o problema do traçado de fronteiras históricas em literatura. A prioridade concedida a Baudelaire por Walter Benjamin. A perda da aura, o fim do romantismo e a modernidade: Uma “crise de versos”. Outras maneiras de traçar a fronteira. Uma fronteira que se ramificasse: Lautréamont/ Ducasse; Rimbaud e Mallarmé. O rosto plural da modernidade. O romantismo acabou mesmo? É possível restaurar a aura? Problemas com o Autor, crise do alexandrino e dos versos -- o poema em prosa. A objectividade ideal do poema. Heroísmos.
21-22 de Maio
DESCONHECIDO NA MORADA: A CARTA NO CINEMA
Clara Rowland (Universidade de Lisboa)
Se a evolução do cinema clássico é caracterizada por uma progressiva supressão da palavra escrita, é possível procurar na representação temática da escrita um dos pontos de tensão e de questionamento das diferenças e relações entre meios de representação. A carta, circulando insistentemente pelo cinema de Hollywood, parece solicitar como resposta uma interrogação das implicações teóricas do confronto entre voz, palavra e imagem no cinema. Se as representações literárias da carta podem ser entendidas como representações do literário, a carta no cinema abre um espaço em que a tensão entre literatura e cinema é directamente encarada. Nesse sentido, a carta envia ao cinema questões de destinação, autoridade e temporalidade, essenciais para uma interrogação das ideias de cinema e de literatura que aí são encenadas. O trajecto proposto considerará estas hipóteses a partir de dois casos contemporâneos e paradigmáticos -Letter from an Unknown Woman (1948) de Max Ophuls e Letter to Three Wives (1949) de Joseph Mankiewicz -, articulando-os com os problemas da representação da carta no cinema mudo e com o regresso da escrita no cinema moderno.
28-29 de Maio
A MÁQUINA DE ESCREVER: O CASO DE FERNANDO PESSOA
Osvaldo Silvestre (Universidade de Coimbra)
«Os nossos instrumentos de escrita têm impacto também sobre os nossos pensamentos», escreveu F. Nietzsche numa carta, em Fevereiro de 1882, pouco tempo após ter começado a usar uma máquina de escrever produzida pelo inventor dinamarquês Malling Hansen. Num texto de 1942-43, Martin Heidegger afirmou, por seu turno, que «A tecnologia está embebida na nossa história». E, especificamente sobre a máquina de escrever, uma vez que o texto trata dela, afirmou que nos afasta da mão, tornando a palavra em algo impresso, «degradando-a [à palavra] ao estatuto de um meio de comunicação». Como nota Friedrich Kittler, a diferença é que Nietzsche escreveu aquela frase à máquina, enquanto Heidegger recorreu antes à sua magnífica caligrafia antiga… Aceitando que os média determinam a nossa situação, e que a história da literatura – como a das artes ou da cultura ou daquelas formas de vida que aspiram de forma mais impetuosa à totalidade do sentido histórico (a política ou a economia) – pode ser recontada, como sugeriu Niklas Luhmann, a partir de uma história das tecnologias de comunicação, a relação que a máquina de escrever estabelece com o corpo, a forma como afecta a própria noção de escrita, não pode deixar de ser tomada em consideração numa análise da situação moderna da literatura. Nesse sentido, propõe-se nesta aula reler a obra do modernista português Fernando Pessoa a partir do comércio que nela se estabelece entre corpo e máquina (de escrever), entre caligrafia e dactilografia, entre materialidades da comunicação escrita e materialidades da comunicação visual ou auditiva. Nesta perspectiva a máquina de escrever permite reler a obra de Pessoa a uma nova luz, deslocando a própria noção de leitura da sua obsessão com a questão hermenêutica para uma série de questões prévias à da constituição do sentido. Tudo isto parece poder sintetizar-se na expressão que funcionará como um criptograma da sessão: «a máquina de escrever Fernando Pessoa», expressão que se explorará em todas as suas dimensões.
4-5 de Junho
«C’EST MOY QUE JE PEINS»:
QUESTÕES DA LITERATURA AUTOBIOGRÁFICA
Clara Rocha (Universidade Nova de Lisboa)
A lição incidirá sobre a formação da identidade moderna e sobre o percurso da nossa concepção do ‘eu’, recordando brevemente textos de Platão, de Santo Agostinho, de Montaigne, da literatura romântica e de autores do século XX, de modo a traçar o arco que vai desde a viragem (agostiniana) para a interioridade até à afirmação (moderna) da multiplicidade do ‘eu’ («Je est un autre»). Depois, analisará os diversos géneros autobiográficos — confissões, memórias, auto-retrato, autobiografia e romance autobiográfico, diário — , pondo em evidência os traços dominantes que os diferenciam e exemplificando com textos literários.
Os Professores
ANTÓNIO M. FEIJÓ
Director da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde ensina no Departamento de Estudos Anglísticos e no Programa em Teoria da Literatura. Autor de Near Miss: A Study of Wyndham Lewis (1908-1930) e de vários ensaios sobre Literatura Inglesa, Americana e Portuguesa, tradutor de Shakespeare, Wilde, Ashbery, entre outros, prepara um livro sobre Fernando Pessoa.
CLARA ROCHA
Professora catedrática (aposentada desde 2009) da Universidade Nova de Lisboa, tem dedicado a sua actividade académica ao estudo da Literatura Portuguesa do século XX. Doutorou-se em 1985, na Universidade de Coimbra, com uma dissertação intitulada Revistas Literárias do Século XX em Portugal, editada no mesmo ano pela IN-CM. Publicou, além desse, os seguintes livros: O Espaço Autobiográfico em Miguel Torga (1977), Os “Contos Exemplares” de Sophia de Mello Breyner (1978), O Essencial sobre Mário de Sá-Carneiro (1985), Máscaras de Narciso (1992), Miguel Torga – Fotobiografia (2000) e O Cachimbo de António Nobre e Outros Ensaios (2003). Este último foi distinguido com o Prémio de Ensaio do PEN Clube e com o Grande Prémio de Ensaio 2003 da A.P.E. Autora de vários prefácios (entre eles, o da edição italiana dos Contos Exemplares de Sophia), tem também colaborado com artigos de crítica literária em revistas e jornais, como JL, Cadernos de Literatura, Colóquio/Letras, Vértice, Letras & Letras, Nova Renascença, Prelo, O Escritor, Letra Internacional, etc. Em 1985 foi agraciada com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Foi professora convidada na Sorbonne em 2004. As suas principais áreas de investigação são o periodismo literário do século XX, a literatura autobiográfica e a poesia portuguesa contemporânea.
CLARA ROWLAND
Professora Auxiliar no Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigadora do Centro de Estudos Comparatistas da mesma instituição. Desenvolve o seu trabalho nas áreas da Literatura Brasileira e da Literatura Comparada. Concluiu o doutoramento em Estudos Comparatistas em 2009 com a tese A Forma do Meio: Livro e Narração na Obra de João Guimarães Rosa. Coordena actualmente um projecto de investigação sobre as relações entre escrita e cinema no Centro de Estudos Comparatistas.
JOSÉ AUGUSTO CARDOSO BERNARDES
Professor na Faculdade de Letras de Coimbra, onde tem regido essencialmente cadeiras no âmbito da Literatura Portuguesa do Renascimento e da Didáctica da Literatura. De entre os trabalhos que publicou, destacam-se História Crítica da Literatura Portuguesa. Vol. II (Humanismo e Renascimento) (1999), A Literatura no Ensino Secundário. Outros caminhos (2004), Sátira e Lirismo no Teatro de Gil Vicente (2006), Gil Vicente (2008). Foi Co-Coordenador de Biblos. Enciclopédia Verbo de Literaturas de Língua Portuguesa.
MANUEL GUSMÃO
Professor catedrático (aposentado desde 2006), ensaísta e crítico, poeta e tradutor de poesia. Licenciou-se em Filologia Românica com uma dissertação sobre os poemas dramáticos de Fernando Pessoa e doutorou-se com uma tese sobre a poesia e a poética de Francis Ponge. Enquanto universitário trabalhou nas Literaturas portuguesa e francesa, em Literatura Comparada ( estudos interartes) e Teoria Literária. Foi redactor das revistas Letras e Artes e O Tempo e o Modo e colaborador permanente do jornal Crítica. Foi fundador das revistas Ariane (do Grupo Universitário de Estudos de Literatura Francesa) e Dedalus (da Associação Portuguesa de Literatura Comparada). Actualmente, é coordenador da revista Vértice (desde 1988) e tem publicado crítica literária no suplemento Ípsilon do jornal Público. Publicou ensaios ou prefaciou obras de Fernando Pessoa, Gastão Cruz, Carlos de Oliveira, Herberto Helder, Sophia de Mello Breyner Andresen, Luiza Neto Jorge, Ruy Belo, Armando Silva Carvalho e Fernando Assis Pacheco; Almeida Faria, Maria Velho da Costa, Nuno Bragança, Maria Gabriela Llansol, Luís de Sousa Costa e José Saramago.
OSVALDO MANUEL SILVESTRE
Professor do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da FLUC. Tem leccionado cadeiras nas licenciaturas em Línguas e Literaturas Modernas e Estudos Portugueses e Lusófonos, na área da teoria da Literatura, em que se doutorou, e ainda na licenciatura em Estudos Artísticos (Estética, Arte e Multimédia, Introdução aos Novos Média, Análise de Filmes). Lecciona ainda, no actual Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra, uma cadeira opcional de Antropologia e Literatura, em co-regência com Luís Quintais. Na pós-graduação leccionou cadeiras de Teoria da Literatura e de Literatura de Língua Espanhola (um curso sobre «Os Mundos de Borges»). Dirigiu a licenciatura de Estudos Portugueses e Lusófonos entre 2006 e 2009. Publicou ensaios e livros sobre questões de teoria, estética, literaturas de língua portuguesa, literatura comparada, artes e crítica cultural.
PERE FERRÉ
Licenciado em Literatura, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1978) e Doutorado em Literaturas Românicas, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1987), exerceu a docência nas universidades de Lisboa e Nova de Lisboa bem como, no estrangeiro, nas universidades de Utrecht e Colónia e na École des Hautes Études de Paris, sendo, desde 2000, Professor Catedrático da Universidade do Algarve, onde desempenha funções de Vice-Reitor. Tem exercido a sua actividade de pesquisa em unidades de investigação ou instituições como o Instituto de Estudos sobre o Romanceiro (Universidade Nova de Lisboa), o Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (Universidade Nova de Lisboa), o ‘Instituto Seminario Menéndez Pidal’ (Universidad Complutense de Madrid), entre outras. Entre os livros publicados, destacam-se as edições dos romanceiros de Teófilo Braga (edição fac-similada do Romanceiro Geral Portuguez (1906-1909), Lisboa, 1982 e de António Tomás Pires (Lendas e Romances, edição crítica, Lisboa, 1987), bem como a Bibliografia do Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna (publicada pela Universidade Complutense em 2000), os primeiros quatro volumes do Romanceiro Português da tradição Oral Moderna. Versões publicadas entre 1828 e 1960 (Fundação Calouste Gulbenkian, 2000, 2001, 2003 e 2004) e, mais recentemente, o Novo Romanceiro do Arquipélago da Madeira (Funchal 500 Anos, 2008).
ROSA MARIA MARTELO
Professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde se doutorou, em Literatura Portuguesa (1996). Investigadora e membro da Direcção do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa (Unidade I&D). Domínios de investigação: Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea, Poéticas dos Séculos XIX, XX e XXI, Literatura Comparada. Principais publicações: Carlos de Oliveira e a Referência em Poesia (1998), Em Parte Incerta. Estudos de Poesia Portuguesa Contemporânea(2004), Vidro do mesmo Vidro – Tensões e deslocamentos na poesia portuguesa depois de 1961 (2007).
Modelo
Cada Lição decorre em duas sessões: uma sessão aberta, na tarde de sexta-feira, constituída pela exposição do professor, e um seminário restrito na manhã de sábado. O propósito do seminário é a discussão da aula da véspera e complemento com análises mais demoradas.
A inscrição no Curso será sempre para a sessão aberta e até ao limite de 80 pessoas. O seminário implicará o pagamento de propina suplementar e está sujeito ao limite de 25 inscrições.
Horários:
Sessão plenária: Sexta-feira, 19h00-20h30.
Seminário restrito: Sábado, 11h00-13h00.
Propinas:
Geral: 75,00 euros
Suplementar: 25,00 euros
Estudantes da FCSH: 20,00 euros (apenas sessão plenária e até ao limite de 25 alunos).
Local:
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
Av. de Berna, 26-C
Lisboa
Contacto para informações:
Teresa Araújo
teresaraujo2 (a) gmail.com
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